Artigo: Ranchos de ausências e presenças

18/08/2026 09:05

O mês de setembro ainda não desabrochou a sua plenitude e já se percebe uma movimentação agitada para os lados do Parque Harmonia. Descarregam-se costaneiras; ouve-se barulhos de serras e ruídos ritmados das marteladas. A fumaça dos tímidos churrascos, faz contraponto ao cheiro  da carne gorda beirando o fogo. Os ranchos começam a tomar forma em mãos e imaginações gaúchas. São ranchos de ausências e presenças...

Ranchos de ausências sentidas de um timbre de galo, que judiado da idade, tal qual seus versos, silenciou o último tronco missioneiro, Pedro Ortaça, mas se renova na sua filha Marianita, patrona dos festejos farroupilhas. Ausência que transborda pelas frestas e vez ou outra, encontra o sol que se debruça sobre o Guaíba como nos versos que  mergulharam o sol  no rio Ibirapuitã para a despedida de Bagre Fagundes, ou que se irmana com Adão Quintana em mais um rancho de ausências. Mas não são só ausências que habitam esses ranchos. As presenças também cantam...

Ranchos de presenças que escutam a voz de Fátima Gimenez que já não soa tão sozinha... É voz feminina que irmana outras e mais outras, formando um coral afinado. Mulheres patronas, chefes de piquetes, mulheres ilimitadas que se desdobram nos afazeres, tarefas e realizações. Não é pela singeleza, que ano após ano as vozes macias e aveludadas, ocupam lugares de mando e comandância. É a história que não permite mais a divisão impune de gênero.

Ranchos de presenças construídos ao longo de muitos anos de uma parceria quase permanente que se inicia muito antes da construção dos ranchos e continuam quando as costaneiras são guardadas e os piquetes esfriam as brasas da convivência.

Ranchos de presenças são esses, que já podemos vislumbrar tomando forma, cercados de asfalto e concreto. Dentro, um fogo de chão alimentado pelas mãos solidárias de homens, ainda maioria, e mulheres “valerosas e leais” como a cidade que as acolhe. Nesse acolhimento, as ausências nos engrandecem pelo caminho trilhado e as presenças determinam o caminho a trilhar.

Liliana Cardoso
Secretária municipal de Cultura de Porto Alegre

*Artigo publicado na edição de 18 de agosto do jornal Zero Hora.

 

Camila Saccomori