Primeiro Centro de Atenção Psicossocial de Porto Alegre completa 30 anos

31/01/2026 07:28
Vanessa Conte/SMS
oficina de arterapia no Caps II
Oficina de arteterapia é uma das atividades do local

O Centro de Atenção Psicossocial (Caps) II Cais Mental completa, em janeiro, 30 anos de atendimento a pessoas com sofrimento psíquico grave e persistente. Foi a primeira estrutura a se transformar em Caps em Porto Alegre, antes mesmo da reforma psiquiátrica consolidada no país a partir da Lei nº 10.216, de 2001. Inicialmente, era um Centro de Atendimento Integral em Saúde Mental (Cais Mental), nome mantido até hoje.

O serviço faz parte da Rede de Atenção Psicossocial da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e, há 20 anos, funciona na avenida José Bonifácio, 71, bairro Farroupilha. Atende de segunda a sexta-feira e não prevê leitos na estrutura. Ao longo das últimas três décadas, cerca de 3,5 mil pessoas foram atendidas diretamente pelo serviço, entre outras beneficiadas indiretamente.

“Entendemos que a coletividade nos atendimentos é o que garante o cuidado. As pessoas chegam com processos de dificuldade de inclusão, interação e socialização. Nosso foco não é o atendimento individualizado, claro que ele também é feito, mas o atendimento coletivo é o nosso lugar de transformação”, relata a terapeuta ocupacional Tatiane Patrícia Souza da Silva.

O trabalho é desenvolvido a partir de um Plano Terapêutico Singular, no qual cada pessoa tem terapeutas de referência e participa da construção do próprio plano. “Partimos da prerrogativa de protagonismo social, no qual as pessoas estão corresponsáveis pelo processo de cuidado. Utilizamos a lógica do afeto, do cuidado em liberdade, pela prática da reabilitação psicossocial, tentando evitar as internações”, afirma Tatiane.

As oficinas em grupo fazem sucesso entre os usuários e são realizadas em diversas modalidades. São estimuladas produções artísticas, de culinária, práticas corporais, horta, expressão verbal e grupo de apoio. As decisões a respeito das atividades são feitas em assembleia com ampla participação. “Eu gosto de tudo, as oficinas, os profissionais, aqui temos uma equipe multidisciplinar que trabalha para a gente evoluir e ficar melhor”, diz Carlos Jacques da Rosa, 47 anos. “O Caps é minha família, meu lar, onde eu recebo o que preciso para sobreviver. Parei de fumar e usei o que aprendi na terapia de corporeidade, com técnicas de respiração. Na oficina de culinária, aprendemos a ter autodomínio”, completa.

Como forma de proporcionar novas experiências e integração com a cidade, são realizados passeios a museus, teatros, cinema e a eventos como a Feira do Livro.  “O Caps supre as nossas carências em termos de sociedade, nós somos integrados. Aqui a gente aprende a conversar, a resolver os problemas, a trazer nossas famílias para que sejam ouvidas”, conta Savana Duarte, 49 anos.

A equipe é composta por três psiquiatras, duas terapeutas ocupacionais, dois psicólogos, enfermeiro, assistente social, cinco técnicos de enfermagem, monitora, técnica em nutrição, cozinheira, auxiliar de cozinha, duas profissionais da higienização e duas atendentes na portaria. Como espaço de educação, o serviço conta com o reforço de residentes de psiquiatria e equipes multidisciplinares, em parceria com diferentes instituições de ensino.

A estrutura possui cinco consultórios, recepção, sala de espera, sala de reuniões da equipe técnica, sala para grupos, sala de estar com livros, setor administrativo, cozinha, refeitório e pátio. O serviço tem um Conselho Local de Saúde constituído e ativo, o que estimula a participação social, com representação em instâncias do Conselho Municipal de Saúde. O acesso para novas pessoas usuárias é a partir do encaminhamento das unidades de saúde, via Sistema de Gerenciamento de Consultas (Gercon).
 

Vanessa Conte

Gilmar Martins